Diário de trabalho - Sábado frio

Sábado frio, em Barra Mansa, havia mais de duas dúzias de adolescentes no Criaad.
Fui informado, por ocasião da passagem de plantão, que mais dois jovens tinham sofrido regressão de medida socioeducativa.
Estávamos vivenciando uma crise na administração do convívio. Os garotos não conseguiam ver perspectiva e finalidade na execução da medida a que estavam submetidos. Passavam o dia se distraindo com ping-pong, TV (canal aberto), artesanato com dobradura de papel, tal qual aprenderam na unidade fechada.
Os socioeducadores sofriam do mesmo desânimo. A passividade do trabalho, sem qualquer estímulo a proposições fazia com que o servidor não sentisse que a sua tarefa possuía algum sentido.
Ficava claro, que a iniciativa era uma dificuldade. Representava praticamente um animal em extinção.
Donde vinha tanta hesitação?
Por que era tão difícil violar a rotina e a previsibilidade dos hábitos vigentes?
Será que existia medo do tal voluntarismo? Seria a essa forma de iniciar um processo novo que se evitava?
Desconfio que era mais do que isso. A mim parece que toda forma nova de se conduzir um trabalho era vista com receio e combatida. Era comum o fenômeno da reação.
O chamado acordo de mediocridade era o mais conhecido trato daquela organização pública.
Especialmente quando se tinha um grupo cuja finalidade era desenvolver tarefas para outro grupo, o que vigorava era a reação a toda ideia que negasse a polarização formada entre os que atendiam e os que eram atendidos.
Tal como um partido, um sindicato, uma equipe de trabalho, uma sala de aula ou uma igreja: os atendidos estavam sempre separados dos que atendiam.
Somente o destaque, a visão objetiva sobre o trabalho, isto é, o público para quem se trabalhava, tinha espaço nas organizações de atendimento.
Dar vida ao recipiendário de uma política de atendimento seria torná-lo um "objeto móvel", portanto, um "alvo" difícil de ser acertado.
Seriamos, pois, capazes de acertar em alvos que se mexiam, falavam e propunham?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Machuca

Cabra cega

Comunidade socioeducativa